Palmas - Tocantins - Brasil, Sexta-Feira, 20 de Abril de 2018

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Brasileiros mudam de vida e se dedicam a ajudar o próximo

“Aqui foi a formatura do terceiro colegial. A foto da esquerda foi menos de um mês do meu acidente. Eu sou o último da direita com a blusa branca”, mostra Rodrigo Mendes.

O acidente a que ele se refere foi um assalto. Um tiro atravessou o pescoço de Rodrigo Mendes, que ficou tetraplégico aos 18 anos de idade.

“No momento, talvez uma sensação de que eu continuava sendo o Rodrigo com a mesma capacidade, talvez com outro contexto, mas que alguns ajustes seriam suficientes para que eu retomasse a minha atividade como cidadão”, lembra Rodrigo.

Hoje, aos 34 anos, ele é um administrador de empresas e o principal executivo do instituto que criou em 1994 e que leva o nome dele.

“Minha ideia, ao criar o instituto, era ajudar, oferecer oportunidades, oferecer bem estar e novos horizontes para pessoas que estivessem em situação de exclusão”, explica.

Tudo começou quando Rodrigo, sem poder movimentar nem braços, nem pernas se envolveu com as artes plásticas e começou a pintar com a boca. Fez oito exposições individuais e vendeu muitos quadros.

As vitórias que conseguiu para si, logo quis dividir com os outros. Criou um atelier de pintura, onde pessoas em situação de exclusão são muito bem-vindas. Aqui elas deixam suas marcas, transparências, manchas, vazios, identidades.

“Temos três programas educativos. Um deles, que são os cursos de arte, trabalha com públicos muito heterogêneos. Tentamos trazer para o atelier de arte misturas de perfis e trabalhamos também com escolas públicas”, aponta.

Rodrigo trabalha de sete a oito horas por dia, normalmente em casa, no computador e no celular. E é reconhecido internacionalmente. Ele é um dos 245 jovens líderes globais, eleitos pelo Fórum Econômico Mundial como alguém que tem um compromisso social e o potencial de modificar o futuro do mundo.

“Hoje eu me sinto uma pessoa que vive com muita intensidade e com vontade de devolver o que eu recebi e continuar construindo. Acho que assumi como missão”, diz Rodrigo.

Não são todos que podem atribuir à profissão que exercem a força desta palavra: missão. Isso é privilégio de poucos que conseguem perceber no espaço do trabalho o lugar perfeito para ajudar a transformar o mundo.

“Eu sinto que essa é uma missão. A maioria das pessoas que trabalha no terceiro setor sente isso também, é quase uma vocação, quase uma missão. Você quer fazer um mundo melhor, quer fazer o seu pedaço, o que você consegue fazer melhor”, a presidente da Impetus Trust Daniela Barone.

Daniela Barone é economista e administradora de empresas, sempre trabalhou com finanças. Criava estratégias, para instituições financeiras dos Estados Unidos e da Inglaterra, de como investir o capital. Ou seja, ajudava os poderosos bancos ingleses e americanos a investirem para terem mais lucro.

“Se eu continuasse trabalhando nos bancos, minha carreira era uma coisa bem clara para mim, porque eu conseguia ver os próximos passos muito claramente do que ia ser minha carreira, ia estar muito rica agora, provavelmente, porque o que eu estava fazendo tinha um retorno financeiro muito grande e eu estava me dando bem”, lembra a economista.

No auge da carreira, Daniela, que morava em Londres há sete anos, decidiu abandonar tudo e se dedicar a uma ONG inglesa, Impetus, que ajuda outras ONGs a se desenvolverem plenamente. Com isso, ela, que chegava a ganhar mais de 400 mil libras por ano, passou a receber praticamente um quinto do que ganhava.

“Quando fiz essa opção, as pessoas próximas disseram que eu estava ficando louca. Foi uma mudança muito grande de vida. A mudança em termos de salário foi enorme, eu tive até de mudar de apartamento. Mudança do jeito que se trabalha e essa incerteza do que vai ser o seu futuro”, lembra.

O futuro de Daniela pode não ser muito nítido, mas ela sabe que o caminho dela é muito diferente do da maioria das pessoas. Ela trouxe profissionalismo para o terceiro setor, uma área muito dependente de voluntários e de trabalhos amadores. Usou tudo o que aprendeu no mercado financeiro, inclusive os contatos, para conseguir financiar a filantropia. Atraiu voluntários poderosos, entre eles banqueiros, pessoas ligadas ao mercado de alto luxo.

“Eu perguntei para ele, porque alguém de alto luxo estava trabalhando com filantropia e ele respondeu: Mas no século 21 filantropia é alto luxo, comenta Daniela.

Daniela também teve o reconhecimento público do seu trabalho. Na Inglaterra, o jornal “The Independent” publicou a lista das 100 pessoas que fizeram do Reino Unido um lugar melhor para se viver. Daniela estava entre elas.

“Há coisas que são difíceis de mensurar, por exemplo as ONGs que bancamos agora estão tendo uma influência enorme em políticas públicas. Isso é uma coisa poderosa também, isso faz grandes mudanças sociais. O aumento do capital social de uma sociedade traz retorno financeiro muito maior do que tanto acumulo de dinheiro. A gente não precisa de tanto assim para viver”, comenta Daniela.

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